Carros irmãos na Fórmula 1: conceitos que discretamente migraram pelo grid

Projeto Motor apresenta carros irmãos na Fórmula 1, ou seja, bólidos que, embora pertençam a equipes diferentes, discretamente compartilharam conceitos técnicos tão semelhantes que chegam a parecer variações do mesmo veículo.

Adicionado a 23 de janeiro de 2026 Valewson Vídeos, Automobilismo Descrição completa

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Este vídeo originalmente publicado no Projeto Motor, o que se deu ao dia 9 de abril de 2020, apresenta alguns exemplos de carros irmãos na Fórmula 1, ou seja, bólidos que, embora pertençam a equipes diferentes, compartilharam conceitos técnicos tão semelhantes que chegam a parecer variações do mesmo veículo.

Além de curioso, o que temos aqui funciona como uma verdadeira viagem no tempo pela engenharia da categoria máxima do automobilismo mundial.

A exclusividade dos chassis e seus limites práticos

Desde o início dos anos 1980, a Fórmula 1 passou a exigir que cada equipe fosse exclusiva no desenvolvimento do próprio carro, proibindo explicitamente a compra e venda de chassis entre escuderias, regra que diferencia a F1 de quase todas as outras categorias do automobilismo.

Na prática, porém, isso nunca impediu que conceitos técnicos migrassem pelo grid. A transferência de engenheiros, acordos políticos e parcerias estratégicas frequentemente resultaram em carros com soluções aerodinâmicas e estruturais extremamente semelhantes — ainda que, no papel, fossem projetos independentes.

É nesse espaço cinzento do regulamento que surgem os chamados “carros irmãos”.

Adrian Newey entre a Leyton House e a Williams

Antes de se tornar o célebre “mago da prancheta”, Adrian Newey esteve longe de ser unanimidade. Na Leyton House, suas soluções renderam carros ora extremamente rápidos e dóceis, ora quase inguiáveis, especialmente em pistas onduladas como Interlagos e Hermanos Rodríguez, onde Ivan Capelli e Maurício Gugelmin chegaram a não se classificar.

No liso asfalto de Paul Ricard, porém, o modelo CG901 quase venceu a prova, deixando claro que havia potencial nas ideias de Newey. Ainda assim, acabou demitido.

Na Williams, com mais estrutura e respaldo técnico, Newey pôde desenvolver o refinadíssimo FW14, uma das forças da temporada de 1991, e as semelhanças com o carro da Leyton House eram evidentes: contornos das aletas laterais da asa dianteira, bico com base elevada e caimento curvilíneo, além do desenho dos sidepods. O conceito, enfim, encontrou o ambiente ideal para florescer.

Benetton e Ligier: quando a política fala mais alto

O caso envolvendo Benetton e Ligier em 1995 vai além da simples semelhança técnica e beira um verdadeiro drible no regulamento. Insatisfeita com o motor Ford V8 em 1994, a Benetton, comandada por Flavio Briatore, encontrou uma solução pouco ortodoxa: Briatore tornou-se sócio da Ligier, que utilizava motores Renault V10.

O contrato com a Renault foi transferido para a Benetton em 1995, e, como compensação, a Ligier recebeu motores Mugen Honda e acesso irrestrito aos detalhes técnicos da Benetton para desenvolver seu carro. O resultado foi o Ligier JS41, praticamente idêntico ao modelo da outra equipe: bico de tubarão, carenagem do motor, sidepods e soluções aerodinâmicas quase iguais.

Pequenas diferenças impediram a FIA de comprovar a ilegalidade, e a Benetton então conquistou os títulos de pilotos e construtores, enquanto a Ligier terminou o campeonato em quinto lugar, com dois pódios.

Benetton B192 e Pacific PR01: a mesma ideia, resultados opostos

Temos aqui uma relação praticamente paradoxal onde, de um lado, o Benetton B192, carro que deu a primeira vitória a Michael Schumacher na Fórmula 1; e, do outro, o Pacific PR01, que mal conseguia se classificar para as corridas em 1994.

Tudo começa com Rory Byrne, projetista de destaque da Benetton, que em 1991 foi convidado a integrar o projeto da Reynard, fabricante de chassis que pretendia entrar na F1. Byrne desenvolveu dois conceitos: um com bico baixo e outro com o famoso bico alto em formato de tubarão.

O projeto da Reynard naufragou por falta de recursos, e Byrne retornou à Benetton, aplicando suas ideias no competitivo B192, enquanto o conceito rejeitado acabou nas mãos da Pacific, que o desenvolveu de forma rudimentar, com motor Ilmor antigo e pouquíssimo orçamento. O resultado foi desastroso: o PR01 largou em apenas cinco dos 16 GPs de 1994.

Ferrari e Sauber: uma parceria sob suspeita

A relação técnica entre Ferrari e Sauber, nos anos 2000, ganhou contornos controversos em 2004. O lançamento do Sauber C23 chamou atenção pelas semelhanças gritantes com o Ferrari F2003-GA, carro do hexa de Schumacher.

Bico, desenho geral e até pequenas saídas de ar nos sidepods pareciam saídos da mesma prancheta, mas, apesar das acusações, a FIA não tomou nenhuma medida. Felizmente para a concorrência, as semelhanças ficaram apenas na aparência: o desempenho da Sauber foi discreto, com pontuação mais consistente apenas no fim da temporada.

Do Brabham BT55 ao McLaren MP4/4: a evolução do “carro-skate”

Nem sempre os “carros irmãos” são visualmente semelhantes, pois. às vezes, o parentesco está no conceito. Em 1986, Gordon Murray chocou a Fórmula 1 com o Brabham BT55, um carro extremamente baixo, projetado para reduzir ao máximo o centro de gravidade — o famoso “carro-skate”.

A ideia era ousada, mas o motor BMW turbo, inclinado a 72 graus, comprometeu o equilíbrio do conjunto, tornando o carro quase inguiável. Foi também nesse modelo que Elio de Angelis perdeu a vida durante testes em Paul Ricard.

Ao chegar à McLaren, Murray retomou o conceito ao lado de Steve Nichols, e, em 1988, com o motor Honda, mais flexível em termos de arquitetura, o MP4/4 finalmente concretizou a ideia, resultando em uma das temporadas mais dominantes da história da Fórmula 1, com Ayrton Senna e Alain Prost.


Os carros irmãos da Fórmula 1 revelam que, mesmo sob regulamentos rígidos, a engenharia encontra caminhos para se repetir, se adaptar e evoluir, mesmo que seja por transferência de engenheiros, acordos políticos ou simples reaproveitamento de ideias promissoras. Em suma, esses projetos que apresentamos aqui mostram que, na F1, assim como em vários outros aspectos das atividades humanas, nenhum conceito nasce isolado.

Entender essas conexões é compreender melhor como a categoria se transforma — não apenas por revoluções técnicas, mas também por heranças silenciosas que atravessam equipes, temporadas e gerações.

Mas o que você achou desta exposição do Projeto Motor? Tem mais algum exemplo de carros irmãos da F-1 pra compartilhar? Qual destes bólidos te marcaram mais? Deixe suas opiniões pra nós! Queremos muito a sua participação!

VaLeW!

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